Flexibilização com segurança para as crianças: é possível?

Flexibilização com segurança para as crianças: é possível? 600 337 Ápice Educação Infantil

Para cuidar da saúde mental da criança, Infectologista aponta atividades que crianças podem fazer que apresentam menos risco de contaminação

Por Thainá Zanfolin

3 de novembro de 2020

Depois de mais de sete meses com a maior parte das atividades suspensas ou reduzidas por causa da pandemia de coronavírus, grande parte do Brasil está passando por uma flexibilização da quarentena. Mesmo com shoppings, parques e escolas reabrindo, os riscos de contaminação pelo coronavírus continuam existindo, o que faz com que muitos pais tenham dúvidas se é ou não possível fazer uma flexibilização com segurança para a criança e toda a família. Por outro lado, muitas crianças demonstram que sentem falta do convívio social e apresentam comportamentos que preocupam os pais.

Será que é possível criar esse equilíbrio? Para responder essas e outras dúvidas, entrevistamos a psicóloga e uma infectologista infantil para explicar quais os efeitos do isolamento na saúde mental das crianças e como é possível realizar uma flexibilização com segurança.

Saúde mental: um ponto a ser considerado

A pandemia trouxe à tona, mais do que nunca, a importância do cuidado com a saúde, principalmente física. Entretanto, com o isolamento social consequente da pandemia, a saúde mental de pais e mães também foi colocada em pauta. Mas e a das crianças?

Para Patrícia Nolêto, psicóloga infantil e colunista aqui na Canguru News, “o impacto de sete meses sem convívio social para as crianças é diferente do impacto nos adultos. Pense que elas perderam a referência de pertencimento, não têm mais a escola, o futebol, a turminha da pracinha. Como se o mundinho delas tivesse desaparecido”, explica.

É importante comparar a criança com ela mesma antes desse isolamento acontecer”, indica Patrícia. 

Segundo ela, ainda não se sabe quais serão os efeitos do isolamento no futuro, mas muito já pode ser notado atualmente. Algumas crianças mudaram comportamentos, deixaram de se interessar por algo que gostavam ou se mostram mais irritadas ou tristes. Tudo isso são sinais que podem indicar que algo não está bem com a saúde mental da criança.

“Observe o funcionamento da criança. Nesses sete meses alguma mudança apareceu? Pode se alteração do sono, apetite, interesses ou alterações de humor. Ela pode, por exemplo, não se interessar por brincadeiras que sempre gostou, ficar mais tempo no quarto, ficar grudada nos adultos, ou pode ter mais medo, irritabilidade, tristeza. É importante comparar a criança com ela mesma antes desse isolamento acontecer”, indica Patrícia.

Como a flexibilização pode ajudar

Quando o assunto é saúde mental da criança, fazer uma flexibilização com segurança para algumas atividades pode ser o ponto ideal, segundo Patrícia, já que colabora para a retomada dessa sensação de pertencimento.

Por esse motivo, Patrícia aponta que nesse momento é interessante priorizar as atividades que reconectem a criança com a vida que ela tinha como referência. “Se vocês costumavam andar de bicicletas em parques no final de semana, volte a frequentar o parque. Se ela fazia natação e vocês se sentirem seguros para isso, volte para a natação. Escolha atividades ao ar livre, como um piquenique, uma caminhada”, aponta, salientando a importância de manter a atividade segura.

Outra questão também é importante: antes de decidir pela flexibilização ou não, a realidade da família deve ser avaliada. “Se é uma casa onde tem idosos ou alguém do grupo de risco, as escolhas de onde e como flexibilizar precisam estar pautadas nisso também. Não adianta liberar a criança e outra parte da família se sentir vulnerável, insegura, ansiosa”, afirma a psicóloga.

É possível fazer uma flexibilização com segurança?

De acordo com Daniela Caldas, infectologista infantil, nenhuma flexibilização no momento é isenta de risco. O que é possível fazer é dosá-lo. “Se você me pergunta se acredito que a gente possa flexibilizar sem colocar em risco, na verdade eu acho que não. O que eu acho é que pode-se minimizar ou manejar esse risco. Ou seja, escolher o que que a gente vai flexibilizar, ver o que é prioridade no momento para a criança, o que vai me trazer mais benefício do que risco”, explica.

Para conseguir perceber isso, Daniela explica que o primeiro passo é analisar quais as chances de contaminação no ambiente em que a criança está sendo exposta. Locais fechados e com muitas superfícies de contato, como shoppings, lojas e restaurantes, por exemplo, aumentam o risco de contágio, já que muitas pessoas enconstam nesses locais, às vezes sem higienizar as mãos depois de tocar a máscara.

“O que me preocupa, por exemplo, de levar crianças no shopping é porque são tantos estímulos, tantas pessoas ao redor, que você tem muitas variáveis para controlar”, diz a infectologista Daniela Caldas

Para as atividades, Daniela explica que é importante considerar se a criança conseguirá ficar de máscara o tempo todo ou se a proteção se tornará incômoda ao realizar tal brincadeira, já que isso faz com que a criança encoste mais na máscara para arrumá-la, por exemplo.

“O que me preocupa, por exemplo, de levar crianças no shopping é porque são tantos estímulos, tantas pessoas ao redor, que você tem muitas variáveis para controlar. Quando você está, por exemplo, em uma quadra, só com uma ou duas crianças e uma bola, são poucas variáveis, sendo mais seguro, pois há poucos locais de contato para a crianças se expor”, explica a infectologista.

O que é indicado para as crianças

Então, o que pode ser feito? De acordo com Daniela, o ideal é escolher atividades que as crianças consigam ficar de máscara (sem tocá-la com frequência), em um ambiente aberto e ventilado e com poucas superfícies de contato.

Brincadeiras que mantenham a distância

Na hora de escolher as brincadeiras, optar por aquelas com menos contato com outras pessoas e crianças, que possam ser feitas com uma certa distância. Também é interessante, segundo Daniela, pensar em brincadeiras que não exijam troca de objetos, como é o caso de dados em jogos de tabuleiro, bolas em brincadeiras com as mãos ou controles de videogame. Isso porque, se uma das crianças encosta com a mão contaminada e passa o item para outra, o risco de contágio aumenta.

“Se eu for fazer uma atividade dentro de casa, tentar fazer algum tipo de brincadeira que elas não troquem o objeto o tempo todo. No caso de crianças maiores, adedanha (ou Stop) é uma que cada um senta no seu espaço, pegam sua folha de papel, seu lápis e podem ficar de máscara”, explica.

Em ambientes ao ar livre, uma dica são brincadeiras com bola, quando essa fica no chão. “Quanto tenho contato com o pé, por mais que ele se contamine, ele não leva a contaminação para minha mucosa, que é onde o vírus é capaz de nos infectar”, explica. Ao brincar de futebol, por exemplo, o adulto pode ficar no gol, já que tem mais controle para não encostar a mão no rosto.

Contato com poucas crianças

A saudade dos amigos da escola e do parquinho deve ser grande, mas ainda não é possível encontrar todos eles de uma vez. De acordo com a infectologista, isso depende da faixa etária da criança e se ela está bem orientada para cumprir as regras. Essas, têm condições de encontrar com outra criança, “mas eu entendo que deve-se limitar esse contato, não encontrar cada dia com uma criança diferente e evitar reunir 10 crianças ao mesmo tempo”, explica Daniela.

Uma ideia para ter um maior controle e conseguir fazer essa flexibilização com segurança é combinar com uma família de manter uma restrição: as crianças se encontram, sendo que as famílias estão evitando circular demais. “Uma família vai ter que confiar na outra, porque se o pai de uma não está seguindo o isolamento e leva o vírus para dentro de casa, o filho dele pode levar para o coleguinha. Então, tem que ser famílias que estejam vivenciando o momento de flexibilização de uma maneira semelhante, mais parecida possível, para ficar até coerente esse processo de flexibilização e de encontro”, exemplifica.

O que não é indicado nesse momento

Segundo Daniela, evitar lugares fechados e com muitas superfícies de contaminação é o mais ideal. Além dos shoppings, que já foram citados, a médica também cita supermercados e restaurantes, já que é difícil controlar o contato com as superfícies e a mão levada à boca, por exemplo.

“Para a gente, que é adulto, às vezes já é difícil esse controle, porque ficamos sem máscara, conversando, comendo, levando a mão na boca, que aumenta a chance de infecção. Para uma criança, isso também é difícil. Então, no meu entendimento, são locais que as crianças ainda não devam frequentar nesse momento“, finaliza.

Além de todo o cuidado prático necessário para evitar o contágio e disseminação do coronavírus, Patrícia chama atenção para outro ponto: “O papel dos pais é ser coerente!”.

Por exemplo, não aceitar uma flexibilização para crianças mas realizá-la para os adultos da casa pode levar a uma frustração dos pequenos, que veem os pais saindo enquanto ficam em casa. Além disso, os pais precisam dar exemplo dos cumprimentos de regras e comportamentos seguros nesse momento.

Segundo a psicóloga, se os pais, que são modelos para os filhos, não seguem as regras e os protocolos de segurança, os filhos também aprendem que esses comportamentos são adequados e aceitos, deixando de se importar com sua própria segurança, o que pode colocar toda a família em risco. Por isso, quando se fala em flexibilização com segurança, o comportamento dos pais também é importante.

Thainá Zanfolin – Jornalista formada pela UNESP, tem experiência na área de Ciência e Saúde, inclusive em temas que envolvem desenvolvimento e bem-estar infantil. Já participou da produção editorial de livros informativos e revistas de diversos assuntos.

Matéria publicada por: www.cangurunews.com.br

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