Como falar sobre racismo com as crianças: 5 atitudes que os pais devem adotar

Como falar sobre racismo com as crianças: 5 atitudes que os pais devem adotar 626 417 Ápice Educação Infantil

“Um dos maiores desserviços à educação das crianças é dizer que “somos todos iguais”, ressalta a organização americana The Counscious Kid. Para especialistas, os pais devem falar sobre racismo com as crianças desde cedo

Por

 Érica Travain

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17 de novembro de 2020

Há uma frase famosa do líder africano Nelson Mandela que diz que “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar”.

Cabe aos pais esse papel de falar com as crianças sobre racismo e as diferentes formas de discriminação racial que infelizmente ainda são comuns no Brasil. Por aqui, o racismo é algo enraizado na nossa cultura de tal forma que a sociedade está estruturada com base na discriminação, privilegiando raças como os brancos, em detrimento de outras, como negros e indígenas – é o chamado racismo estrutural.

Abolir essa prática discriminatória é algo complexo, mas que pode mudar se as novas gerações forem conscientizadas desde cedo das injustiças e da desigualdade social que existe no país, evitando assim que reproduzam padrões de preconceito racial tão arraigados em nossa sociedade.

“Quando os adultos ficam calados, eles reforçam o preconceito racial em crianças.” (The Counscious Kid)

No geral, as famílias têm consciência da importância do assunto, porém, muitas se sentem perdidas quanto a como abordar o tema com os filhos e quando fazê-lo. “The counscious kids”, uma organização americana que busca promover o desenvolvimento saudável da identidade racial em crianças e adolescentes, lembra que nunca é cedo para falar sobre raça. “Os adultos geralmente pensam que devem evitar conversar com crianças sobre raça ou racismo porque isso faz com que elas percebam a raça ou se tornem racistas. Na verdade, quando os adultos ficam calados, eles reforçam o preconceito racial em crianças”, diz a entidade.

Segundo o órgão, desde pequeninhas, as crianças aprendem que o céu é azul, que as árvores são verdes e entendem qual o “lugar” que as pessoas negras ocupam na sociedade racista. Elas percebem os padrões da sociedade – veem que as pessoas são tratadas de forma diferente por causa da cor e que também por isso recebem oportunidades diferentes; identificam o personagem mais desejável nos filmes que assistem; e assimilam quem, pela aparência, parece ter funções ou cargos específicos no consultório médico ou nas escolas, por exemplo. E a partir do que veem, tentam atribuir “regras” que expliquem tais padrões.

Um dos maiores desserviços à educação das crianças é dizer que “somos todos iguais”.

Um dos maiores desserviços à educação das crianças é dizer que “somos todos iguais”, ressalta a organização americana. Por mais que a intenção seja evitar a discriminação, não falar a verdade sobre as questões raciais é que pode reforçar o racismo e deixar que as crianças (que sabem de tudo) tirem suas próprias conclusões. 

Cada mãe, pai ou responsável conhece a sua criança e sabe a melhor forma de abordar o assunto com ela, buscando sempre oferecer referências positivas que a ajudem a entender a complexidade do racismo no mundo. Afinal, qual mundo você oferece de referência para sua criança? A seguir, destacamos 5 atitudes que os pais podem adotar para promover uma educação antirracista com os filhos. Replicamos também um quadro compartilhado pela comunicadora Deh Bastos, do perfil “Criando Crianças Pretas” que mostra como a sensibilidade étnica da criança de acordo com sua idade. Confira!

Falar sobre racismo com as crianças: por onde começar

1. Seja o exemplo dos seus filhos

“Os pais devem tratar pessoas com igualdade. O respeito deve ser o mesmo com todos. O exemplo é a primeira aprendizagem que os filhos trazem como parte de si”, afirma Janaína Spolidorio, consultora e especialista em educação. “Deve-se evitar apelidos preconceituosos, tratamento desigual e falta de respeito”, destaca.

Se os pais desejam promover uma educação antirracista precisam, antes de tudo, serem modelos. Por isso, devem avaliar seus relacionamentos com outras pessoas. Alguns dos questionamentos mais sugeridos são: Quantas pessoas do meu convívio são negras ou indígenas? Quantas não são subalternas? Eu denuncio os casos de racismo que vejo? A diversidade precisa estar presente em igualdade nos relacionamentos dos adultos para que isso possa estar presente também na vida das crianças. Só assim também serão capazes de entender as dificuldades sofridas por minorias.

2. Apresente e celebre outras culturas

Livros, brinquedos, filmes, desenhos animados e músicas são excelentes maneiras de apresentar às crianças outras culturas. No entanto, não basta somente colocar a música para tocar ou dar “play” em um filme e deixar o filho assistir sozinho. Os pais precisam apreciar em conjunto. Leiam autores negros, assistam a filmes com protagonistas indígenas e escutem canções de artistas indianos, por exemplo. Em outras palavras, acompanhe as crianças na apreciação de outras culturas.

3. Tenha orgulho das origens

O sistema educacional brasileiro tradicionalmente conta a história do povo negro a partir da escravidão, ressaltando o papel intervencionista da Princesa Isabel na abolição. Contudo, pesquisas históricas revelam a importância de abolicionistas negros no processo e ressaltam a cultura afro antes da escravidão. Há muito mais riqueza do que é apresentado nos currículos escolares e isso deve ser transmitido aos pequenos.

“Ensine seu filho sobre sua história e suas raízes. Dê a ele inúmeros motivos para se orgulhar da sua pele, do seu cabelo, dos seus traços, mas principalmente de toda riqueza cultural de um povo que teve sua origem numa terra distante, farta, rica, maravilhosa, com reis e rainhas que deixam o legado em cada preto ou preta velha”, sugere Marisa Conceição dos Santos Ferreira de Santana, educadora graduada em letras. “Perpetuem nosso orgulho, de luta e resistência, não para que isso seja motivo de disputas e discórdias, mas motivo de soma cultural e direitos, de seres humanos, iguais que somos!”, destaca.

4. Procure uma educação antirracista na escola

O racismo costuma ser trabalhado apenas em datas comemorativas, como o Dia da Consciência Negra, mas não pode ser tratado como um evento isolado. “Nossa sociedade tem parte de sua formação com a cultura negra. Temos muitas contribuições desta cultura em nosso cotidiano. Deveríamos trazer mais para a sala esta cultura (assim como outras, como a indígena)”, pontua Janaína.

Os professores podem apresentar histórias ou brincadeiras que façam parte das culturas africana, indígena, chinesa ou indiana. “Quanto mais variada a oferta de diversidade cultural na sala mais a criança perceberá o valor de ter uma formação variada e de respeitar outras culturas e tradições”, explica a consultora.

Marisa também destaca a importância da representatividade para os alunos: “Precisamos de professores e diretores que nos sirvam de espelho. Eu preciso ver o outro e querer estar lá um dia. Em todas as áreas, as crianças precisam acreditar que se o outro está lá, ela também poderá um dia”. A presença de educadores que recebam os alunos de forma mais humana e estejam preparados para as mudanças no universo educacional é cada vez mais necessária.

5. Informe-se sobre o privilégio branco

“O nosso sistema educacional está pautado ainda, infelizmente, numa estrutura educacional embranquecida. Não tem como desvincular o racismo com processo de ensino desumano a que nossas crianças negras são expostas. As crianças negras e pardas são o dobro, em termos de atraso de aprendizagem, exatamente porque já chegam na escola sendo a minoria; e, dentro dessa escola, que deveria ser acolhedora e ter representatividade, elas são excluídas e submetidas a situações constrangedoras. Isso num país que diz não ser racista”, expõe Marisa.

A diferença educacional é apenas um dos privilégios. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou a morte violenta de quase cinco mil crianças apenas em 2019. Desse número, os negros representavam 75% de todas as vítimas entre 0 e 19 anos. Entre os principais tipos de crimes estavam homicídios e lesões corporais seguidas de morte.

Reconhecer o privilégio branco e o racismo estrutural presentes na sociedade brasileira é o primeiro passo para deixar de ser conveniente com as opressões do dia a dia. Como adulto, busque sempre informações sobre as diferenças sociais existentes e discuta o assunto com outras pessoas. “Falar sobre racismo é importante, pois quanto mais se fala, mais a criança compreende”, afirma Janaína.

Qual é a idade certa para falar sobre o racismo?

A comunicadora Deh Bastos, responsável pelo perfil do Instagram “Criando Crianças Pretas” (@criandocriancaspretas), compartilhou em seu perfil um quadro que mostra, com base em estudos científicos, como nos tornamos sensíveis às diferenças étnicas de acordo a idade. Confira:

0 A 1 ANO: os bebês olham igualmente para os rostos de todas as raças. Aos 3 meses, os bebês olham mais para os rostos que correspondem à raça de seus cuidadores.

2 ANOS E MEIO: a maioria das crianças usa a raça para escolher colegas de brincadeira.

4 A 5 ANOS: expressões de preconceito racial costumam atingir as crianças dessa faixa etária.

5 ANOS: as crianças mostram muitas das mesmas atitudes raciais mantidas por adultos em nossa cultura. Elas aprendem a associar alguns grupos com status mais alto que outros.

5 A 7 ANOS: conversas explícitas sobre amizade interracial podem melhorar drasticamente suas atitudes raciais em menos de uma semana.

Érica TravainJornalista graduada pela UNESP e pós-graduada em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM. Há seis anos escreve sobre saúde, comportamento e história. É extremamente curiosa, apaixonada por gastronomia e adora ler sobre desenvolvimento humano.

Fonte: Canguru News

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